quinta-feira, 5 de junho de 2014

Capítulo cinquenta e cinco



Nos dias que se seguem, é movimento, não quietude, que ajuda a manter a dor sob controle, então ando pelas salas do complexo em vez de dormir. Vejo todo mundose recuperar do soro da memória que os alterou permanentemente como se de uma grande distância.
Aqueles perdidos no nevoeiro do soro da memória são reunidos em grupos e expostos à verdade: que a natureza humana é complexa, que todos os nossos genes são diferentes, mas nem deficientes nem puros. Eles também são expostos a uma mentira: a de que suas memórias foram apagadas por causa de um acidente, e que eles estavam à beira de pressionar o governo pela igualdade dos GDs.
Eu continuo me sentindo sufocado pela companhia de outras pessoas e, em seguida, prejudicado pela solidão quando eu os deixo. Não sei do que estou com medo, porque já perdi tudo. Minhas mãos tremem quando paro na sala de controle para ver a cidade nas telas. Johanna está organizando o transporte para aqueles que querem deixar a cidade. Eles virão aqui para saber a verdade. Eu não quero saber o que vai acontecer com aqueles que permanecerem em Chicago, e não tenho certeza se me importo.
Enfio minhas mãos nos bolsos e assisto por alguns minutos, em seguida, ando de novo, tentando coincidir meus passos com as batidas do meu coração, ou evitando as fissuras entre os azulejos. Quando passo pela entrada, vejo um pequeno grupo de pessoas reunidas perto da escultura de pedra, uma deles em uma cadeira de rodas – Nita.
Passo por uma barreira de segurança inútil e fico a uma certa distância, observando-os. Reggie pisa na laje de pedra e abre uma válvula no fundo do tanque de água. As gotas se transformam em um fluxo de água, e logo a água jorra para fora do tanque, molhando a laje inteira, molhando a parte inferior das calças de Reggie.
— Tobias?
Tremo um pouco. É Caleb. Dirijo-me para longe da voz, em busca de uma rota de fuga.
— Espere. Por favor — ele diz.
Eu não quero olhar para ele para ver quanto – ou quão pouco – ele chorou por ela. Não quero pensar sobre como ela morreu por um covarde miserável, sobre como ele não valia a sua vida.
Ainda assim, olho para ele, querendo saber se posso ver um pouco dela em seu rosto, ainda faminto por ela, mesmo agora, sabendo que ela se foi.
Seu cabelo está sujo e despenteado, os olhos verdes injetados, a boca se contorcendo em uma careta.
Ele não se parece com ela.
— Eu não quero incomodá-lo — ele diz. — Mas tenho algo a lhe dizer. Algo... ela me disse para te dizer, antes...
— Anda logo com isso — respondo, antes que ele tente terminar a frase.
— Ela me disse que se não sobrevivesse, eu devia te dizer... — Caleb engasga, então arruma sua postura, relutando contra as lágrimas. — Que ela não queria deixá-lo.
Eu deveria sentir alguma coisa, suas últimas palavras para mim, não deveria? Eu não sinto nada. Me sinto mais longe do que nunca.
— É? — pergunto asperamente. — Então por que ela fez aquilo? Por que ela não te deixou morrer?
— Você acha que não estou me fazendo a mesma pergunta? — Caleb replica. — Ela me amava. O suficiente para me manter longe de uma arma para que ela pudesse morrer por mim. Eu não tenho ideia do porquê.
Ele vai embora sem me deixar responder, e é provavelmente melhor assim, porque eu não posso pensar em nada para dizer que seja equivalente à minha raiva. Eu pisco e as lágrimas caem no chão, bem no meio do lobby.
Eu sei por que ela quis me dizer que não queria me deixar. Ela queria que eu soubesse que esta não era outra sede de Erudição, não era uma mentira contada para me fazer dormir enquanto ela ia morrer, não um ato de sacrifício desnecessário. Empurro meus dedos contra os olhos como se eu pudesse empurrar minhas lágrimas de volta para dentro. Sem chorar, eu me castigo. Se eu deixar um pouco de emoção sair, tudo vai sair e isso nunca vai acabar.
Algum tempo depois eu ouvi vozes por perto – Cara e Peter.
— Esta escultura era um símbolo de mudança — ela conta a Peter. — A mudança gradual, mas agora eles estão trazendo-a abaixo.
— Oh, mesmo? — Peter parece ansioso. — Por quê?
— Hum...  Vou explicar mais tarde, se estiver tudo bem — diz Cara. — Você se lembra de como voltar ao dormitório?
— Sim.
— Então... volte para lá por um tempo. Alguém vai estar lá para ajudá-lo.
Cara caminha até mim, e eu me encolho em antecipação a sua voz. Mas tudo o que ela faz é sentar-se ao meu lado no chão, as mãos cruzadas no colo, as costas retas. Alerta, mas relaxada, ela observa a escultura onde Reggie está sob a água jorrando.
— Você não tem que ficar aqui — eu digo.
— Eu não tenho que estar em nenhum lugar. E o silêncio é bom.
Então, nós ficamos sentados lado a lado, olhando para a água, em silêncio.

+ + +

— Aí está você — diz Christina, se movendo em nossa direção. Seu rosto está inchado e sua voz é apática como um suspiro pesado. — Vamos lá, está na hora. Eles estão desconectando-o.
Eu tremo ao ouvir a palavra, mas fico em pé do mesmo jeito. Hana e Zeke estavam pairando sobre o corpo de Uriah desde que chegamos aqui, seus dedos encontrando os dele, os olhos à procura de vida. Mas não resta mais vida, apenas a máquina fazendo com que seu coração bata.
Cara anda atrás de Christina e eu enquanto vamos para o hospital. Eu não durmo há dias, mas não me sinto cansado, não da maneira como normalmente me sinto, embora meu corpo doa quando ando. Christina e eu não nos falamos, mas sei que estamos pensando a mesma coisa, em Uriah, em seus últimos suspiros.
Nós vamos para a janela de observação fora da sala de Uriah, e Evelyn está lá – Amar buscou-a ao invés de mim, há poucos dias. Ela tenta tocar meu ombro e eu não deixo, não quero ser consolado.
Dentro da sala, Zeke e Hana estão um de cada lado de Uriah. Hana está segurando uma de suas mãos, e Zeke está segurando a outra. Um médico está perto do monitor cardíaco, uma prancheta estendida, não para Hana ou Zeke, mas para David. Sentado em sua cadeira de rodas. Curvado e aturdido, como os outros que perderam suas memórias.
— O que ele está fazendo lá?
Sinto que todos os meus músculos, ossos e nervos estão pegando fogo.
— Ele ainda é tecnicamente o líder do Centro, pelo menos até que o substituam — Cara responde atrás de mim. — Tobias, ele não se lembra de nada. O homem que você conhecia não existe mais, é como se ele estivesse morto. Esse homem não se lembra de ter matad...
— Cale a boca! — grito.
 David assina a prancheta e se vira, empurrando-se para a porta. A porta abre e eu não consigo me impedir, invisto em direção a ele, e apenas Evelyn me impede de envolver minhas mãos em torno de sua garganta. Ele me dá um olhar estranho e segue para o corredor enquanto estou pressionado contra o braço da minha mãe, que é como uma barra de ferro em meus ombros.
— Tobias — diz Evelyn. — Se acalme.
— Por que alguém não o prende? — exijo, e meus olhos estão muito borrados para conseguir ver.
— Porque ele ainda trabalha para o governo — diz Cara. — Só porque eles declararam que aquilo foi um lamentável incidente, não significa que vão demitir todos. E o governo não vai prendê-lo só porque ele matou um rebelde sob coação.
— Um rebelde — repito. — Isso é tudo o que ela é agora?
— Era — Cara diz suavemente. — E não, claro que não, mas é assim que o governo a vê.
Estou prestes a responder, mas Christina interrompe.
— Gente, eles vão desligá-lo.
No quarto de Uriah, Zeke e Hana juntam suas mãos livres sobre o corpo de Uriah. Vejo os lábios de Hana se movimentarem, mas não consigo dizer o que ela está falando. Os Audaciosos tem orações para a morte? A Abnegação reage à morte com silêncio e serviços, não com palavras. Descubro que minha raiva está desaparecendo, e estou perdido em pesar novamente, desta vez não apenas por Tris, mas por Uriah, cujo sorriso arde em minha memória.
O irmão do meu amigo, e depois meu amigo também, embora não por tempo suficiente para deixar que seu humor trabalhasse o seu caminho em mim, e não por tempo suficiente.
O médico aperta alguns interruptores, traz sua prancheta para perto de si, e as máquinas param de respirar por Uriah. Os ombros de Zeke tremem, e Hana aperta sua mão com força, até que os nós dos dedos fiquem brancos. Em seguida, ela diz algo e suas mãos se abrem, e ela se afasta do corpo de Uriah. Deixando-o ir.
Eu me afasto da janela, caminhando a princípio, depois correndo, fazendo meu caminho através de corredores, descuidado, cego, vazio.

Capítulo cinquenta e quatro



Tobias


Eu verei o corpo dela... Alguma hora. Não sei quanto tempo se passou desde que Cara me disse o que aconteceu.
Christina e eu andamos ombro a ombro; andamos nos calcanhares de Cara. Não me lembro da viagem da entrada até o necrotério, na verdade, apenas algumas imagens borradas e qualquer som que eu possa ter feito que subiu através da barreira dentro da minha cabeça.
Ela encontra-se em uma mesa, e por um momento penso que ela está apenas dormindo, e quando eu tocá-la, ela vai acordar, sorrir para mim e beijar a minha boca. Mas quando eu a toco, ela está fria, seu corpo rígido e inflexível.
Christina funga e soluça. Eu aperto a mão de Tris, rezando para que se eu fizer isso com força suficiente, vou enviar a vida de volta para seu corpo e ela irá se encher de cor e acordar.
Não sei quanto tempo leva para eu perceber que isso não vai acontecer, que ela se foi. Mas quando sinto toda a força sair de mim, caio de joelhos ao lado da mesa e acho que choro, ou pelo menos eu quero, e tudo dentro de mim grita por apenas mais um beijo, mais uma palavra, mais um olhar, só mais um.

Capítulo cinquenta e três

Tobias


Mas essa não foi a primeira vez que eu a vi. Eu a vi nos corredores da escola, no falso funeral de minha mãe, e andando pelas calçadas do setor Abnegação. Eu a vi, mas não a vi, ninguém a viu do jeito que ela realmente era até que ela pulou.
Suponho que um fogo que arde tão forte não é feito para durar.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Capítulo cinquenta e dois

Tobias


Quando o seu corpo bateu inicialmente na rede, tudo o que registrei foi um borrão cinza. Puxei-a através dele e sua mão era pequena, mas acolhedora, e então ela estava diante de mim, pequena, magra e lisa de todas as maneiras banais – exceto que ela tinha saltado primeiro. A Careta tinha saltado primeiro.
Até eu não pulei primeiro.
Seus olhos eram tão severos, tão insistentes.
Lindos.

Capítulo cinquenta e um

Tobias


Evelyn enxuga as lágrimas dos olhos com o polegar. Estamos de pé perto das janelas, ombro a ombro, observando a neve redemoinhar. Alguns dos flocos juntam-se no peitoril da janela do lado de fora, acumulando no cantos.
A sensação voltou para as minhas mãos. Enquanto olho para o mundo, polvilhado de branco, sinto como se tudo começasse de novo, e que será melhor desta vez.
— Acho que posso entrar em contato com Marcus no rádio para negociar umacordo de paz — diz Evelyn. — Ele vai ouvir, seria estúpido não fazer isso.
— Antes de fazer isso, tem uma promessa que tenho que cumprir — eu digo.
Toco o ombro de Evelyn. Eu esperava ver tensão nas bordas do seu sorriso, mas não vejo.
Sinto uma pontada de culpa. Eu não vim aqui para pedir-lhe para estender os braços para mim em troca de tudo pelo o que ela trabalhou só para me ter de volta. Mas, novamente, eu não vim aqui para lhe dar qualquer escolha. Acho Tris estava certa, quando você tem que escolher entre duas opções ruins, você escolhe a que salva as pessoas que você ama. Eu não teria salvado Evelyn dando-lhe o soro. Eu a teria destruído.
Peter está sentado de costas para a parede no corredor. Ele olha para mim quando inclino-me sobre ele, seu cabelo escuro grudado à testa pela neve derretida.
— Reinicializou sua mãe?
— Não — respondo.
— Não acho que você teria coragem.
— Não se trata de coragem. Sabe o quê? Tanto faz — balanço minha cabeça e ergo o frasco do soro da memória. — Você ainda tem certeza sobre isso?
Ele confirma com a cabeça.
— Você poderia simplesmente trabalhar nisso, sabe — lembro. — Você podetomar decisões melhores, fazer uma vida melhor.
— Sim, eu poderia. Mas eu não vou. Nós dois sabemos disso.
Eu sei disso. Sei que a mudança é difícil, vem lentamente, e que é o trabalho de muitos dias seguidos em uma longa fila da qual a origem está esquecida. Ele tem medo de que não será capaz de se colocar ao trabalho, que ele vai desperdiçar esses dias, e que eles vão deixá-lo pior do que está agora. E eu entendo esse sentimento – entendo ter medo de si mesmo.
Então, sento-o em um dos sofás e pergunto o que ele quer que eu diga a ele sobre si mesmo depois que suas memórias desaparecerem como fumaça. Ele apenas balança a cabeça. Nada. Ele não quer lembrar-se de nada.
Peter pega o frasco com uma mão trêmula e torce a tampa. O líquido treme em seu interior, está quase derramando sobre seu lábio. Ele o aproxima do nariz para sentir o cheiro.
— Quanto devo beber? — pergunta, e eu acho que ouvi seus dentes tremerem.
— Não acho que isso faça diferença.
— Tudo bem. Então... aqui vai — ele levanta o frasco contra a luz, como se estivesse me convidando a brindar.
Quando o frasco toca a sua boca, eu digo:
— Seja corajoso.
Então ele engole.
E eu vejo Peter desaparecer.

+ + +

O ar exterior tem gosto de gelo.
— Ei! Peter! — Eu grito, minha respiração se condensando no ar.
Peter está próximo da porta da sede da Erudição, parecendo confuso. Ao som de seu nome – que eu lhe disse pelo menos dez vezes desde que ele bebeu o soro – ele levanta as sobrancelhas, apontando para seu peito. Matthew nos disse que as pessoas ficariam desorientadas por um tempo depois de beber o soro da memória, mas não pensava que “desorientado” significava “estúpido” até agora.
Eu suspiro.
— Sim, é você! Pela décima primeira vez! Vamos, vamos lá.
Pensei que quando olhasse para ele depois de ter bebido o soro, eu ainda veria o iniciado que enfiou uma faca de manteiga no olho de Edward, o rapaz que tentou matar a minha namorada e todas as outras coisas que ele fez, puxando do fundo da minha mente desde que o conheço. Mas é mais fácil do que eu pensei ver que ele não tem mais ideia de quem é. Seu olhar ainda é arregalado e inocente, mas dessa vez eu acredito.
Evelyn e eu andamos lado a lado, com Peter trotando atrás de nós. A neve parou de cair, mas uma quantidade suficiente se acumulou no chão, que chia debaixo dos meus pés. Nós andamos para o Parque Millennium, onde a grande escultura de metalreflete a luz da lua, e depois descemos um lance de escadas. À medida que descemos, Evelyn envolve a mão em volta do meu cotovelo para manter o equilíbrio, e trocamos um olhar. Eu me pergunto se ela está nervosa em ver meu pai novamente. Me pergunto se ela está cada vez mais nervosa.
Na parte inferior dos degraus está um pavilhão com dois blocos de vidro em cada ponta, cada um com pelo menos três vezes a minha altura. Este é o lugar onde dissemos que iríamos encontrar Marcus e Johanna – ambas as partes armadas para ser realista, mas ainda assim.
Eles já estão lá. Johanna não está segurando uma arma, mas Marcus sim, e ele a tem apontada para Evelyn. Aponto a arma que Evelyn me deu para ele, só em caso de segurança. Noto a superfície lisa de seu crânio, à mostra por seu cabelo raspado, e o caminho irregular que seu nariz torto esculpe no rosto.
— Tobias! — Johanna diz. Ela está vestindo um casaco vermelho da Amizade salpicado de flocos de neve. — O que você está fazendo aqui?
— Tentando impedi-los de matar uns aos outros — eu digo. — Estou surpreso que você esteja carregando uma arma.
Aceno para uma protuberância no bolso de seu casaco, o contorno inconfundível de uma arma.
— Às vezes você tem que tomar medidas difíceis para assegurar a paz — Johanna responde. — Acredito que você concorda com isto, como um princípio.
— Não estamos aqui para bater papo — Marcus interrompe, olhando para Evelyn. — Você disse que queria fazer um acordo.
Nas últimas semanas tem acontecido alguma coisa com ele. Posso ver isso nos cantos curvados de sua boca, na pele roxa debaixo dos olhos. Percebo os meus olhos fixados em sua cabeça e penso em meu reflexo na paisagem do medo, quando eu estava apavorado, sentindo o medo propagando-se pela minha pele como se fosse uma erupção cutânea. Ainda temo que eu me torne igual a ele, mesmo agora, de pé em desacordo com ele com minha mãe a meu lado, como sempre sonhei que seria quando era criança. Mas não acho que eu ainda esteja com medo.
— Sim — Evelyn responde. — Tenho alguns termos para nós dois concordarmos. Acho que você irá achá-los justos. Se concordar com eles, vou depor todas as armas que meu povo não está usando para proteção pessoal. Vou deixar a cidade e não retornar.
Marcus ri. Não tenho certeza se é uma risada zombeteira ou incrédula. Ele é capaz de qualquer um desses sentimentos, um homem arrogante e profundamente desconfiado.
— Deixe-a terminar — Johanna diz calmamente, colocando as mãos dentro das mangas.
— E em troca — Evelyn continua — você não vai atacar ou tentar tomar o controle da cidade. Vai permitir que aqueles que optem por ficar possam votar em novos líderes e em um novo sistema social. E o mais importante, você, Marcus, não será elegível para dominá-los.
É o único termo puramente egoísta do acordo de paz. Ela me disse que não podia suportar a ideia de Marcus enganando as pessoas para segui-lo, e eu não queria discutir com ela.
Johanna levanta as sobrancelhas. Percebo que ela tem o cabelo puxado para trás de ambos os lados, revelando a cicatriz em sua totalidade. Ela parece melhor assim – forte, quando não está se escondendo atrás de uma cortina de cabelo, escondendo quem ela é.
— Sem acordo — Marcus responde. — Eu sou o líder dessas pessoas.
— Marcus — Johanna alerta.
Ele a ignora.
— Você não pode decidir se eu vou liderá-los ou não porque você tem rancor de mim, Evelyn!
— Desculpe-me — Johanna diz em voz alta. — Marcus, o que ela está oferecendo é bom demais para ser verdade, obtemos tudo o que queremos, sem violência! Como você pode dizer não?
— Eu sou o líder legítimo destas pessoas! Sou o líder dos Convergentes! Eu...
— Não você não é — Johanna fala calmamente. — Eu sou a líder dos Convergentes. E você vai aceitar esse acordo, ou eu vou dizer-lhes que você teve a chance de acabar com esse conflito sem derramamento de sangue se sacrificasse seu orgulho, e você disse não o fez.
A máscara passiva de Marcus desaparece, revelando o rosto malicioso que se escondia sob ela. Mas mesmo assim ele não foi capaz de argumentar com Johanna, cuja perfeita calma e ameaça dominou-o. Ele balança a cabeça, mas não discute novamente.
— Eu concordo com os termos — diz Johanna, e ela estende a mão, seus passos rangendo na neve.
Evelyn remove sua luva dedo por dedo, e treme.
— Pela manhã, nós devemos reunir todos e contar-lhes o novo plano — Johanna fala. — Você pode garantir um acordo seguro?
— Vou fazer o meu melhor — responde Evelyn.
Checo meu relógio. Uma hora se passou desde que Amar e Christina se separaram de nós, perto do edifício Hancock, o que significa que ele sabe que o vírus não funcionou. Ou talvez ele não saiba. De qualquer forma, tenho que fazer o que vim fazer aqui, tenho que encontrar Zeke e sua mãe e dizer a eles o que aconteceu com Uriah.
— Eu devo ir — digo para Evelyn. — Tenho outra coisa para fazer. Mas vou encontrá-la nos limites da cidade amanhã à tarde, tudo bem?
— Está bem — Evelyn concorda, e esfrega meu braço rapidamente com uma mão enluvada, como costumava fazer quando eu chegava do frio quando criança.
— Você não vai voltar, suponho? — Johanna me pergunta. — Encontrou uma vida para si mesmo lá fora?
— Encontrei — confirmo. — Boa sorte aqui. As pessoas de fora – elas vão tentar derrubar a cidade. Você deve estar preparada.
Johanna sorri.
— Tenho certeza de que podemos negociar com eles.
Ela me oferece a mão, e eu a cumprimento. Sinto os olhos de Marcus em mim como um peso opressivo ameaçando esmagar-me. Eu me forço a olhar para ele.
— Adeus — digo a ele, e quero realmente dizer isso.

+ + +

Hana, a mãe de Zeke, tem pés pequenos que não tocam o chão quando ela se senta na poltrona em sua sala de estar. Ela está usando um roupão de banho e ásperos chinelos pretos, mas o ar que ela tem, com as mãos dobradas no colo e as sobrancelhas levantadas, é tão digno que sinto que estou de pé na frente de um líder mundial. Olho para Zeke, que está esfregando o rosto com os punhos para acordar.
Amar e Christina os encontraram, mas não entre outros revolucionários perto do edifício Hancock, mas no apartamento da família na Pira, acima da sede da Audácia. Eu só os encontrei porque Christina pensou em deixar para mim e Peter uma nota com a nova localização no caminhão inutilizado. Peter está esperando na nova van que Evelyn encontrou para dirigirmos até o Centro.
— Sinto muito — digo. — Eu não sei por onde começar.
— Você pode começar com o pior — Hana sugere. — Como o que exatamente aconteceu com o meu filho.
— Ele ficou gravemente ferido durante um ataque — respondo. — Houve uma explosão, e ele estava muito perto.
— Oh Deus — diz Zeke, e ele balança a cabeça para trás e para frente como se seu corpo quisesse ser uma criança novamente, acalmado pelo movimento como uma criança.
Mas Hana só inclina a cabeça, escondendo o rosto de mim.
Sua sala de estar tem cheiro de alho e cebola, talvez os restos do jantar daquela noite. Inclino meu ombro na soleira da porta. Pendurado torto ao meu lado está um retrato da família – Zeke é uma criança, Uriah um bebê no colo da mãe. O rosto de seu pai possui piercings em vários lugares – nariz, orelhas e lábios, mas o seu sorriso largo e brilhante e a pele escura são mais familiares para mim, porque ele os passou para seus filhos.
— Ele está em coma desde então — digo. — E...
— E ele não vai acordar — completa Hana, com a voz tensa. — Isso é o que você veio nos dizer, não é?
— Sim — respondo. — Eu vim para buscá-la para que você possa tomar uma decisão em seu nome.
— Zeke — diz Hana, e ela balança a cabeça. Ele afunda de volta no sofá. As almofadas parecem envolvê-lo. — É claro que não queremos mantê-lo vivo dessa maneira. Ele gostaria de seguir em frente. Mas gostaríamos de vê-lo.
Concordo com a cabeça.
— Claro. Mas há algo mais que eu deveria dizer. O ataque... foi uma espécie de revolta que envolveu algumas pessoas do lugar onde estávamos. E eu participei dele.
Fico olhando para as rachaduras nas tábuas que estão bem na minha frente, na poeira que se reuniu há muito tempo, e espero por uma reação, qualquer reação. O que me é dado é apenas o silêncio.
— Eu não fiz o que você me pediu — falo para Zeke. — Não cuidei dele do jeito que deveria. E sinto muito.
Eu olho para ele, e Zeke permanece sentado, olhando para uma xícara vazia na mesa de café. Está pintado com rosas desbotadas.
— Acho que precisamos de algum tempo com isso — diz Hana.
Ela limpa a garganta, mas não consegue disfarçar a voz trêmula.
— Eu gostaria de poder dá-lo a você. Mas voltaremos para o complexo muito em breve, e você tem que vir com a gente.
— Tudo bem — Hana responde. — Se puder esperar do lado de fora, estaremos lá em cinco minutos.

+ + +

A viagem de volta para o complexo é lenta e escura. Vejo a lua desaparecer e reaparecer atrás das nuvens enquanto balançamos na estrada. Quando alcançamos os limites exteriores da cidade, começa a nevar de novo, bastante, flocos de luz que giram na frente dos faróis. Me pergunto se Tris está assistindo a neve do outro lado da calçada se reunindo em pilhas perto dos aviões. Eu me pergunto se ela está vivendo em um mundo melhor do que aquele que eu saí, entre as pessoas que já não recordam o que é ter genes puros.
Christina se inclina para sussurrar em meu ouvido.
— Então, você o fez? Funcionou?
Concordo com a cabeça. Pelo espelho retrovisor, vejo-a tocar o rosto com as duas mãos, sorrindo entre suas palmas. Eu sei como ela se sente: segura. Estamos todos a salvo.
— Você inoculou sua família? — pergunto.
— Sim. Nós as encontramos com os Convergentes, no edifício Hancock — diz ela. — Mas a hora para a reinicialização passou – parece que Tris e Caleb a pararam.
Hana e Zeke murmuram um para o outro no caminho, maravilhados com o mundo estranho e escuro que estamos passando. Amar dá a explicação básica à medida que avançamos, olhando para eles ao invés de para a estrada vezes demais para o meu desconforto. Tento ignorar meus surtos de pânico quando ele quase bate em postes ou barreiras na estrada, e concentro-me na neve.
Sempre odiei o vazio que o inverno traz à paisagem em branco e a diferença gritante entre o céu e a terra, a forma como ele transforma as árvores em esqueletos e a cidade em um terreno baldio.
Talvez neste inverno eu possa ser convencido do contrário.
Passamos pelas cercas e paramos nas portas da frente, que já não estão vigiadas por guardas. Nós saímos, e Zeke pega a mão de sua mãe para firmá-la enquanto ela treme na neve. À medida que caminhamos para o composto, eu sei de fato que Caleb conseguiu, porque não há ninguém à vista. Isso só pode significar que eles foram reinicializados, suas memórias para sempre alteradas.
— Onde estão todos? — Amar pergunta.
Nós passamos pelo posto de segurança abandonado sem parar. Do outro lado, vejo Cara. A lateral do rosto está muito machucada, e há uma bandagem em sua cabeça, mas isso não é o que me preocupa. O que me preocupa é o olhar perturbado em seu rosto.
— O que aconteceu? — pergunto.
Cara balança a cabeça.
— Onde está Tris?
— Sinto muito, Tobias.
— Sinto muito por quê? — Christina devolve. — Diga-nos o que aconteceu!
— Tris foi para o Laboratório de Armas ao invés de Caleb — Cara conta. — Ela sobreviveu ao soro da morte, e detonou o soro da memória, mas ela... ela foi baleada. E ela não sobreviveu. Eu sinto muito.
Na maioria das vezes eu posso dizer quando as pessoas estão mentindo, e esta deve ser uma mentira, porque Tris ainda está viva, os olhos brilhantes, as faces coradas e seu corpo pequeno cheio de poder e força, de pé em uma faixa de luz no lobby. Tris ainda está viva, ela não me deixaria aqui sozinho, ela não iria para o laboratório de armas no lugar de Caleb.
— Não — diz Christina, sacudindo a cabeça. — De jeito nenhum. Tem que haver algum engano.
Os olhos de Cara se enchem de lágrimas.
É então que percebo: é claro que Tris iria para o Laboratório de Armas em vez de Caleb.
É claro que ela faria isso.
Christina grita alguma coisa, mas para mim a voz dela soa abafada, como se eu tivesse minha cabeça submersa em água. Os detalhes do rosto de Cara também se tornaram difíceis de ver, o mundo se espalhando em cores sem graça. Tudo o que posso fazer é ficar parado, me sinto como se apenas ficando parado, posso impedir esse fato de ser verdade, posso fingir que está tudo bem. Christina se debruça, incapaz de suportar sua própria dor, e Cara a abraça, e tudo o que eu faço é ficar parado.

Capítulo cinquenta

Tris


— Como você se vacinou contra o soro da morte? — ele me pergunta.
Ele continua sentado em sua cadeira de rodas. Mas você não precisa ser capaz de andar para disparar uma arma.
Eu pisco pra ele, continuo tonta.
— Eu não me vacinei.
— Não seja estúpida. Você não pode sobreviver ao soro da morte sem uma vacina, e eu sou a única pessoa no complexo que possui essa substancia.
Eu apenas o encaro, sem certeza do que falar. Eu não me vacinei. O fato de que continuo parada em pé é impossível. Não há nada mais para falar.
— Suponho que isso não importa mais — ele diz. — Nós estamos aqui agora.
— O que você está fazendo aqui? — balbucio.
Sinto meus lábios estranhamente grandes, difícil de falar. Ainda sinto aquele peso oleoso na minha pele, como se a morte estivesse se prendendo a mim, mesmo depois de eu tê-la derrotado.
Estou consciente de que deixei minha arma no corredor atrás de mim, certa de que não precisaria dela se chegasse até tão longe.
— Eu sabia que alguma coisa estava acontecendo — David diz. — Você tem andado por aí com pessoas geneticamente danificadas a semana inteira, Tris, pensou que eu não notaria? — Ele balança sua cabeça. — E depois, sua amiga Cara foi pega tentando manipular as luzes, mas ela sabiamente fugiu antes de poder falar qualquer coisa para nós. Então eu vim para cá, só pra checar. Estou triste em dizer que não estou surpreso em ver você.
— Você veio aqui sozinho? — pergunto. — Você não é muito esperto, é?
Seus olhos brilhantes se espremem um pouco.
— Bom, você vê, eu tenho resistência ao soro da morte e uma arma, e você não tem como lutar contra mim. Não há como você roubar quatro dispositivos de vírus enquanto tenho você na mira da arma. Temo que tenha vindo até aqui por razão nenhuma, e isso vai custar sua vida. O soro da morte pode não ter te matado, mas eu vou. Tenho certeza de que você entendeu – oficialmente nós não permitimos morte como punição, mas não posso deixar que você sobreviva a isto.
Ele acha que estou aqui para roubar as armas que irão reinicializar os experimentos, não para ativar uma delas. É claro que ele acha isso.
Tento esconder minha expressão, embora eu tenha certeza de que ela continua ali. Deslizo meus olhos pelo cômodo, buscando pelo dispositivo que vai lançar o vírus do soro da memória. Eu estava lá quando Matthew o descreveu para Caleb detalhadamente mais cedo: uma caixa preta com um teclado prateado, marcado com uma listra azul com um número modelo escrito nele. É um dos únicos itens no balcão ao longo da parede esquerda, somente alguns centímetros longe de mim. Mas não posso me mover, ou então ele vai me matar.
Vou ter que esperar pelo momento certo, e fazer isso rápido.
— Eu sei o que você fez — digo. Começo a me afastar, esperando que aquela acusação o distraia. — Sei que você projetou a simulação de ataque. Sei que você é responsável pela morte dos meus pais – pela morte da minha mãe. Eu sei.
— Eu não sou responsável pela morte dela! — David responde, as palavras irrompendo dele, altas e súbitas. — Eu avisei a ela o que estava vindo logo antes de o ataque começar, então ela tinha tempo suficiente para escoltar os seus amados para uma casa segura. Se ela tivesse permanecido segura, teria vivido. Mas ela era uma mulher tola que não entendia sobre fazer sacrifícios para o bem maior, e isso a matou!
Eu franzo minha testa para ele. Há algo em sua reação – sobre a translucidez de seus olhos – alguma coisa que ele murmurou quando Nita injetou-o com o soro do medo – alguma coisa sobre ela.
— Você a amou? — pergunto. — Todos os anos ela te mandava correspondência... o motivo pela qual você queria que ela permanecesse lá... o motivo pela qual você disse a ela que você não podia mais ler as suas notícias, depois de ela casar com o meu pai...
David permanecesse parado como uma estátua, como um homem de pedra.
— Eu a amei — ele diz. — Mas esse tempo passou.
Esse é o motivo pela qual ele me acolheu em seu circulo de confiança, o motivo pela qual me deu tantas oportunidades. Porque eu sou uma parte dela, vestindo seu cabelo e falando com a sua voz. Porque ele passou sua vida buscando por ela e nunca teve nada.
Eu escuto passos no corredor lá fora. Os soldados estão vindo. Bom – porque preciso que eles se exponham ao soro no ar, para espalhá-lo pelo resto do complexo. Com sorte vão esperar até que o ar esteja limpo do soro da morte.
— Minha mãe não era tola. Ela apenas entendia algo que você não. Não é sacrifício se é a vida de outro que você está jogando fora, é apenas maldade.
Eu me afasto outro passo e digo:
— Ela me ensinou sobre sacrifícios reais. Que deve ser feito por amor, nãoconfundido com desgosto pela genética de outra pessoa. Que deve ser feito por necessidade, não sem esgotar todas as outras opções. Deve ser feito para pessoas que precisam de força porque elas não têm o suficiente para si mesmas. Por esse motivo eu tive que te impedir de “sacrificar” todas aquelas pessoas e suas memórias. Por esse motivo preciso livrar o mundo de você de uma vez por todas.
Eu balanço a minha cabeça.
— Eu não vim aqui para roubar nada, David.
Invisto na direção do dispositivo. A arma dispara e dor corre pelo meu corpo. Eu não sei nem onde a bala me acertou.
Ainda posso ouvir Caleb repetindo o código para Matthew. Com uma mão trêmula, digito os números no teclado.
A arma dispara novamente.
Mais dor, e pontos pretos na minha visão, mas escuto a voz de Caleb falando de novo. O botão verde.
Muita dor.
Mas como, se sinto meu corpo dormente?
Eu começo a cair, e deslizo a mão no teclado enquanto caio. Uma luz acende atrás do botão verde.
Eu escuto um bip, e um som agitado.
Deslizo para o chão. Sinto alguma coisa quente em meu pescoço, e embaixo do meu queixo. Vermelho. Sangue é uma cor estranha. Escuro.
Pelo canto do meu olho, vejo David se afundando na cadeira de rodas. E minha mãe saindo de trás dele.
Ela está vestida com as mesmas roupas que vestia da última vez que a vi, cinza da Abnegação manchado com seu sangue, os braços nus mostrando a tatuagem. Ainda há buracos de tiros em sua camisa; através deles eu posso ver sua pele machucada, vermelha mas não mais sangrando, como se ela estivesse congelada no tempo. Seucabelo loiro opaco está amarrado para trás em um coque, mas alguns fios soltosmoldam seu rosto em ouro.
Sei que ela não pode estar viva, mas não sei se estou vendo-a agora porque estou delirando por conta da perda de sangue, ou se o soro da morte bagunçou meus pensamentos ou se ela está aqui de alguma outra forma.
Ela se ajoelha perto de mim e toca uma mão fria em minha bochecha.
— Olá, Beatrice — ela diz, e sorri.
— Eu já estou pronta? — pergunto, e não tenho certeza se eu realmente falei isso ou se eu só pensei e ela ouviu.
— Sim — ela responde, seus olhos brilhantes de lágrimas. — Minha querida filha, você se saiu tão bem.
— E os outros?
Eu engasgo com um soluço enquanto uma imagem de Tobias vem a minha mente, quão escuros e firmes seus olhos eram, quão forte e quente sua mão era, quando nós ficamos pela primeira vez face a face.
— Tobias, Caleb, meus amigos?
— Eles vão cuidar uns dos outros — ela diz. — Isso é o que as pessoas fazem.
Eu sorrio e fecho meus olhos.
Sinto o fio me puxando de novo, mas desta vez sei que não é uma força sinistra me arrastando para a morte.
Desta vez sei que é a mão do meu irmão, me trazendo para seus braços.
E eu vou tão feliz para o seu abraço.

+ + +

Posso ser perdoada por tudo o que fiz para chegar aqui?
Eu quero ser.
Eu posso.
Eu acredito nisso.