sábado, 12 de abril de 2014

Capítulo trinta e quatro

Uma vez que estou no corredor, paro de lutar em direção a Jeanine. Meu flanco lateja, efeito colateral de onde Peter me deu um soco, mas não é nada em comparação com a sensação de triunfo.
Peter escolta-me de volta à minha cela sem uma palavra. Eu fico no meio da cela por um longo tempo, olhando para a câmera no canto traseiro esquerdo. Quem está me olhando o tempo todo? São traidores da Audácia, me vigiando, ou a Erudição, me observando?
Uma vez que o calor deixa meu rosto e minha lateral para de doer, eu me deito.
Uma imagem de meus pais flutua na minha cabeça no momento em que fecho meus olhos. Uma vez, quando eu tinha 11 anos, parei na porta do quarto de meus pais para vê-los fazer a cama juntos. Meu pai sorriu para minha mãe enquanto eles puxavam o lençol e alisavam em perfeita sincronia. Eu sabia, pela maneira como olhou para ela, que ele a prezava com um respeito maior do que tinha por si mesmo.
Nem egoísmo nem insegurança o impediam de ver toda a extensão de sua bondade, como tantas vezes acontece com o resto de nós. Esse tipo de amor pode só ser possível na Abnegação. Eu não sei.
Meu pai: nascido na Erudição, crescido na Abnegação. Ele sempre achou difícil viver à altura das exigências de sua facção escolhida, assim como eu. Mas ele tentou, e conhecia a verdadeira Abnegação quando a via.
Aperto o travesseiro ao meu peito e enterro meu rosto nele. Eu não choro. Eu apenas sofro.
O luto não é tão pesado quanto a culpa, mas tira mais de você.

+ + +

— Careta.
Eu acordo com um sobressalto, minhas mãos ainda segurando o travesseiro. Há uma mancha úmida no colchão sob o meu rosto. Sento-me, enxugando os olhos com os meus dedos.
As sobrancelhas de Peter, que geralmente aparecem no meio, estão franzidas.
— O que aconteceu?
O que quer que seja, não pode ser bom.
— Sua execução foi agendada para amanhã de manhã, às oito horas.
— Minha execução? Mas ela... Ela não desenvolveu a simulação direito ainda, ela não poderia...
— Ela disse que vai continuar as experiências em Tobias em vez de você — ele responde.
Tudo o que eu posso dizer é:
— Oh.
Aperto o colchão e balanço para frente e para trás, para frente e para trás. Amanhã minha vida vai acabar. Tobias pode sobreviver por tempo suficiente para escapar da invasão dos sem facção. A Audácia vai eleger um novo líder. Todas as pontas soltas que deixarei serão facilmente atadas.
Concordo com a cabeça. Sem família, sem pontas soltas, sem grande perda.
— Eu poderia ter te perdoado, sabe — digo. — Por tentar me matar durante a iniciação. Eu provavelmente poderia ter perdoado.
Nós dois ficamos em silêncio por um momento. Eu não sei por que disse isso a ele. Talvez apenas porque é verdade, e hoje à noite, de todas as noites, é o momento de honestidade. Hoje à noite eu vou ser honesta, e altruísta, e corajosa. Divergente.
— Eu nunca pedi que você me perdoasse — ele diz, e se vira para sair. Mas então ele para na soleira da porta e diz: — São 09h24.
Dizer-me as horas é um pequeno ato de traição e – portanto, um simples ato de bravura. E talvez seja a primeira vez que vi Peter ser verdadeiramente da Audácia.

+ + +

Eu vou morrer amanhã. Faz muito tempo desde que tive certeza de algo, de modo que isto parece um presente. Hoje à noite, nada. Amanhã, o que quer que venha depois da vida. E Jeanine ainda não sabe como controlar os Divergentes.
Quando começo a chorar, agarro o travesseiro no meu peito e deixo acontecer. Eu choro muito, como uma criança chora, até que meu rosto está quente e eu sinto que poderia vomitar. Posso fingir ser corajosa, mas não sou.
Acho que agora seria o momento de pedir perdão por todas as coisas que eu fiz, mas tenho certeza de que minha lista nunca estaria completa. Eu também não acredito que o que vem depois da vida depende de eu recitar corretamente uma lista de minhas transgressões – isso soa muito como uma pós-vida da Erudição, toda precisão e nenhum sentimento. Eu não acredito que o que vem depois depende de nada do que fiz.
Acho que ficarei melhor se fizer como a Abnegação me ensinou: afastar-me de mim mesma, sempre projetando para fora, e na esperança de que na próxima, serei melhor do que sou agora.
Eu sorrio um pouco. Gostaria de poder dizer aos meus pais que vou morrer como a Abnegação. Eles ficariam orgulhosos, eu acho.

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