— Beatrice.
Eu acordo em um pulo. A sala em que estou agora – para o experimento que eles desejam executar em mim – é grande, com telas ao longo da parede traseira e luzes azuis ardendo um pouco acima do chão e linhas de bancos acolchoados em todo o meio. Eu estou sentada no banco mais distante no fundo com Peter no meu ombro esquerdo, a cabeça inclinada contra a parede. Eu ainda não consigo chegar a dormir o suficiente.
Agora, eu gostaria de não ter acordado. Caleb está a poucos metros de distância, apoiando seu peso em um pé, uma postura incerta.
— Alguma vez você deixou a Erudição? — pergunto.
— Não é tão simples assim — ele começa. — Eu...
— É simples assim — quero gritar, mas minha voz sai calma. — Em que momento você traiu nossa família? Antes de nossos pais morrerem, ou depois?
— Eu fiz o que tinha que fazer. Você acha que entende, Beatrice, mas não entende. Toda esta situação... É muito maior do que você pensa que é.
Seus olhos me suplicam para entender, mas eu reconheço o seu tom – é o que ele empregava quando éramos mais jovens, para me repreender. É condescendente.
Arrogância é uma das falhas no coração da Erudição – eu sei. Está, muitas vezes, no meu.
Mas a ganância é a outra. E eu não tenho essa. Então, estou meio dentro e meio fora, como sempre.
Eu fico em pé.
— Você ainda não respondeu à minha pergunta.
Caleb dá passos para trás.
— Isto não é sobre a Erudição; é sobre todos. Todas as facções — diz ele. — E a cidade. E o que está fora da cerca.
— Eu não me importo — digo, mas não é verdade.
A frase fora da cerca espeta no meu cérebro. Fora? Como algo disso poderia ter aver com o que está lá fora?
Algo coça na parte de trás da minha mente. Marcus disse que a informação que a Abnegação possuía motivou o ataque de Jeanine sobre a Abnegação. Será que a informação tem a ver com o que está fora, também? Empurro o pensamento para longe, por enquanto.
— Pensei que você adorasse fatos. E liberdade de informação? Bem, e sobre este fato, Caleb? Quando... — Minha voz treme. — Quando você traiu os nossos pais?
— Eu sempre fui da Erudição — ele fala em voz baixa. — Mesmo quando era para ser Abnegação.
— Se você está com Jeanine, então eu o odeio. Assim como nosso pai odiaria.
— Nosso pai — Caleb bufa um pouco. — Nosso pai era da Erudição, Beatrice. Jeanine me disse – ele estava no mesmo ano que ela na escola.
— Ele não era da Erudição — falo depois de alguns segundos. — Ele escolheu deixá-los. Ele escolheu uma identidade diferente, exatamente como você, e se tornou outra coisa. Só que você escolheu este... Este mal.
— Falou como uma verdadeira Audaciosa — diz Caleb bruscamente. — É de uma maneira ou de outra. Sem nuances. O mundo não funciona assim, Beatrice. O mal depende de onde você está.
— Não importa onde eu esteja, ainda vou achar que controlar as mentes de uma cidade inteira de pessoas é ruim — sinto meu lábio tremer. — Eu ainda vou pensar que entregar a sua irmã para ser estudada e executada é ruim!
Ele é meu irmão, mas quero rasgá-lo em pedaços.
Em vez de tentar, embora, encontro-me sentada novamente. Eu nunca poderia machucá-lo o suficiente para fazer sua traição parar de doer. E dói, em cada parte do meu corpo. Aperto meus dedos ao meu peito para massagear um pouco da tensão e afastá-la.
Jeanine e seu exército de cientistas da Erudição e traidores da Audácia entram enquanto eu limpo as lágrimas de minhas bochechas. Eu pisco rapidamente para que ela não veja. Ela quase não me dá um olhar.
— Vamos ver os resultados, mostre-nos — ela anuncia.
Caleb, agora de pé nas telas, pressiona algo na frente da sala, e as telas ligam. Palavras e números que eu não entendo preenchem as telas.
— Nós descobrimos algo extremamente interessante, Srta. Prior. — Eu nunca a vi tão alegre antes. Ela quase sorri – mas não completamente. — Você tem uma grande quantidade de um determinado tipo de neurônio, chamado simplesmente de neurônio espelho. Será que alguém gostaria de explicar à Srta. Prior exatamente o que os neurônios espelho fazem?
Os cientistas da Erudição levantam suas mãos em uníssono. Ela aponta para uma mulher mais velha na frente.
— Neurônios espelho funcionam quando se executa uma ação ou quando se vê outra pessoa realizar essa ação. Eles permitem-nos imitar o comportamento.
— Pelo quê mais são eles responsáveis? — Jeanine verifica sua “classe” da mesma forma que meus professores faziam nos Níveis Superiores. Outra Erudita levanta a mão.
— Aprendizagem de línguas, compreender as intenções de outras pessoas com base em seu comportamento, hum... — Ele franze a testa. — E a empatia.
— Mais especificamente — Jeanine diz, e dessa vez ela sorri para mim amplamente, forçando rugas em seu rosto — alguém com muitos neurônios espelho fortes poderia ter uma personalidade flexível – capaz de mimetizar os outros quando a situação pede por isso, ao invés de permanecer constante.
Eu entendo porque ela sorri. Sinto que minha mente foi quebrada, seus segredos derramando pelo chão para eu finalmente ver.
— Uma personalidade flexível — ela diz — provavelmente teria aptidão para mais de uma facção, você não concorda, Srta. Prior?
— Provavelmente — respondo. — Agora, se você puder obter uma simulação para suprimir essa habilidade em especial, poderíamos terminar com isso.
— Uma coisa de cada vez — ela pausa. — Tenho que admitir que me confunde você estar tão ansiosa para sua própria execução.
— Não, não confunde — fecho meus olhos. — Não confundo nada — eu suspiro. — Posso voltar para minha cela agora?
Devo parecer indiferente, mas não estou. Quero voltar para o meu quarto, para que eu possa chorar em paz. Mas não quero que ela saiba disso.
— Não fique muito confortável — ela gorjeia. — Nós vamos ter uma simulação para tentar em breve.
— Sim — eu digo. — Tanto faz.
+ + +
Alguém sacode meu ombro. Eu acordo num pulo, meus olhos arregalados e procurando, e vejo Tobias ajoelhado sobre mim. Ele usa uma jaqueta de um traidor da Audácia, e um lado de sua cabeça está coberta com sangue. O sangue flui de uma ferida em sua orelha – o topo dela está faltando. Estremeço.
— O que aconteceu? — pergunto.
— Levante-se. Temos que correr.
— É muito cedo. Não passou duas semanas.
— Eu não tenho tempo para explicar. Vamos.
— Oh Deus, Tobias.
Sento-me e passo meus braços em torno dele, pressionando o meu rosto em seu pescoço. Seus braços em volta de mim me apertam forte. Calor passa através de mim, e conforto. Se ele está aqui, significa que estou segura. Minhas lágrimas deixam sua pele escorregadia.
Ele se levanta e me puxa de pé, o que faz o meu ombro ferido pulsar.
— Reforços vão estar aqui logo. Vamos.
Eu o deixo me levar para fora do quarto. Nós andamos pelo primeiro corredor sem dificuldade, mas no segundo corredor, encontramos dois guardas da Audácia, um jovem e uma mulher de meia-idade. Tobias dispara duas vezes em questão de segundos, os dois tiros, um na cabeça e um no peito. A mulher, que foi atingida no peito, cai contra a parede, mas não morre.
Mantemo-nos em movimento. Um corredor, depois outro, todos eles parecem o mesmo. O aperto de Tobias na minha mão nunca vacila. Eu sei que ele pode jogar uma faca para que ela atinja apenas a ponta da minha orelha, ele pode disparar com precisão nos soldados da Audácia que nos emboscam. Desviamos de corpos caídos – pessoas que Tobias matou no caminho, provavelmente – e finalmente alcançamos uma saída de incêndio.
Tobias solta minha mão para abrir a porta, e o alarme de incêndio grita em meus ouvidos, mas nós continuamos correndo. Estou com falta de ar, mas não me importo, não quando eu finalmente estou fugindo, não quando este pesadelo finalmente acabou. Minha visão começa a escurecer nas bordas, então pego o braço de Tobias e seguro firme, confiante que ele vai me conduzir em segurança para o pé das escadas.
Os degraus para descer acabam, e abro meus olhos. Tobias está prestes a abrir a porta de saída, mas eu o seguro.
— Tenho que recuperar o fôlego...
Ele faz uma pausa, e eu coloco as mãos sobre os joelhos, inclinando-me sobre eles. Meu ombro ainda palpita. Eu franzo a testa, e olho para cima para ele.
— Vamos, vamos sair daqui — diz ele insistentemente.
Meu estômago afunda. Eu olho para seus olhos. Eles são azul escuro, com um fragmento de azul claro em sua íris direita.
Eu tomo o queixo na mão e puxo os lábios para baixo nos meus, beijando-o lentamente, suspirando quando recuo.
— Nós não podemos sair daqui — eu digo. — Porque esta é uma simulação.
Ele me levanta puxando minha mão direita. O Tobias de verdade teria se lembrado da ferida no meu ombro.
— O quê? — Ele franze a testa para mim. — Você não acha que eu saberia se estivesse sob uma simulação?
— Você não está em uma simulação. Você é a simulação — olho para cima e digo em voz alta: — Você vai ter que fazer melhor do que isso, Jeanine.
Tudo o que tenho que fazer agora é despertar, e sei como – eu já fiz isso antes, em minha paisagem de medo, quando quebrei um tanque de vidro apenas tocando a minha palma nele, ou quando fiz uma arma aparecer na grama para atirar nos pássaros. Pego uma faca de bolso – uma faca que não estava lá há um momento – e será duro como diamante na minha perna.
Empurro a faca em direção à minha coxa.
+ + +
Eu acordo com lágrimas nos olhos. Acordo para ouvir Jeanine gritar de frustração.
— O que é?
Ela pega a arma de Peter da mão dele e atravessa a sala, pressionando o cano na minha testa. Meu corpo endurece, fica frio. Ela não vai atirar em mim. Eu sou um problema que ela não pode resolver. Ela não vai atirar em mim.
— O que é que te dá pistas? Diga-me. Diga-me ou eu vou te matar.
Eu lentamente me levanto da cadeira, fico de pé, empurrando minha pele mais para dentro do cilindro frio.
— Acha que vou dizer a você? Acha que eu acredito que você iria me matar sem descobrir a resposta a esta pergunta?
— Sua garota burra. Acha que isso se trata de você, e seu cérebro anormal? Isso não é sobre você. Não é sobre mim. É sobre manter esta cidade segura de pessoas que pretendem mergulhá-la no inferno!
Invoco o último da minha força e lanço-me para ela, agarrando qualquer pele que minhas unhas encontram, cravando tão forte quanto posso. Ela grita a plenos pulmões, um som que vira o meu sangue em fogo. Eu a soco com força no rosto.
Um par de braços me envolve, puxando-me de cima dela, e um punho encontra minha lateral. Eu solto um gemido, e pulo em sua direção, segura por Peter.
— Dor não pode me fazer dizer a você. Soro da verdade não pode me fazer dizer a você. Simulações não podem me fazer dizer a você. Eu sou imune a todos os três.
Seu nariz está sangrando, e eu vejo linhas de arranhões de unhas em suas bochechas, ao lado de sua garganta, ficando vermelhos com sangue florescendo. Ela olha para mim, apertando o nariz fechado, seu cabelo despenteado, sua mão livre tremendo.
— Você falhou. Você não pode me controlar! — grito, tão alto que minha garganta dói. Eu paro de lutar e cedo contra o peito de Peter. — Você nunca será capaz de me controlar.
Eu rio, sem alegria, uma risada louca. Saboreio a carranca em seu rosto, o ódio em seus olhos. Ela era como uma máquina; era fria e sem emoção, vinculada apenas pela lógica. E eu a quebrei.
Eu a quebrei.
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