segunda-feira, 12 de maio de 2014

Capítulo 9



Dan ficou boquiaberto, ignorando a irmã, que abria e fechava a boca numa surpreendente imitação de baiacu pintado.
— Prrr? — fez Saladin.
— Demaaaaaaaaaaaaais! — Dan gritou para quem quisesse ouvir.
Pegou Saladin no colo e se jogou nos braços de Nellie.
Amy estava com cara de quem tinha visto um fantasma. Mas para Dan, Nellie era bem real. Ela tinha aquela textura... de couro e metal. E, uma fração de segundo depois, Amy também se jogou em cima dela. Chorando, é claro. O que fez Nellie chorar também. O que quase estragou todo o clima. Até o tio Alistair estava com os olhos marejados.
Saladin subiu nos braços de Amy, e ela deu um sorriso descrente.
— Mas como você...?
— Como eu achei vocês? — Nellie riu. — Estava em todos os noticiários: metrô interditado, pessoas nos trilhos... Daí eu, tipo, putz! Só podem ser a Amy e o Dan!
— Onde você arranjou esse carro tão legal? — acrescentou Dan.
— De onde vieram esses tiros? — emendou Amy.
— Cadê a sacola preta? — Dan quis saber.
— Como você escapou dos Kabra? — foi a vez de Alistair.
— Opa, calma lá — Nellie interrompeu com uma risada. — Eu ainda preciso de ajuda!
Atrás dela, duas figuras sombrias saíram do carro.
— Ela não fugiu de nós — disse lan Kabra.
— Dão besbo — confirmou Natalie com uma voz fanha.
Dan sentiu seu sangue descer até os pés. Amy agarrou o braço dele.
— A gente acaba de sobreviver a um ataque ninja — Dan disse a ela. — Lembre que eles são dois, contra nós quatro.
— Prrr — disse Saladin.
— Foi mal, cinco — sussurrou Dan.
— A-tchiiim! — espirrou Natalie. — Odeio gatos.
— ATACAR! — Dan gritou.
lan lançou para ele um sorriso paciente e brandiu uma pistola atordoadora.
— Dan... agache! — gritou Amy.
— Você perguntou de onde vieram os tiros? — disse lan. — Eis a sua resposta. Vocês sobreviveram à Yakuza porque eu tinha essa arma na mão. E porque insisti em alugar um carro com agilidade e precisão, e não a velharia que sua babá queria.
— Se vocês alda dão berceberam, seus ibecis, dós salvabos vocês. A-tchiiim!
— Mas... por quê? — Dan perguntou. — Vocês odeiam a gente.
— Isso é berdade — Natalie admitiu com um suspiro cansado.
— Ei, Nat. Toma seu remedinho pra alergia, ok? Assim você não fica espirrando em cima de mim no carro. — Sorrindo para Dan e Amy, Nellie abriu a porta do motorista. — Entrem, todos vocês.
— Mas... — disse Amy, olhando relutante na direção dos Kabra.
— Temos que sair daqui antes que a Yakuza volte. Vou explicar tudo. Ah! E as malas estão lá no porta-malas.
Beleza!, pensou Dan. Isso significava que as espadas estavam lá. O menino subiu no banco de couro macio com Amy e lan, enquanto os outros se espremiam na parte da frente.
— Nossa, isso sim é que é estilo — observou Dan. — A gente pode ficar com este carro?
— Nós deixamos umas... roupas e acessórios perto da estação de metrô — disse Alistair polidamente. — Talvez eu possa lhe indicar o caminho, Nellie.
— Apertem os cintos de segurança! — Nellie mandou.
Ela deu partida e o carro se afastou do meio-fio. Nellie pisou no acelerador para cruzar um sinal amarelo. Alistair fez um gesto para que virasse à direita, enquanto ela continuava falando:
— Certo, atualizando. Quando vi o Poindexter e a Mortícia no avião, eu pirei. Eu pensei, tipo, o que aconteceu com as crianças? Achei que eles tinham devorado vocês. Então eles me contaram o que aconteceu. Ainda se gabando. Eles têm tipo 14 e 11 anos, mas falam como se tivessem saído de um tabuleiro daquele jogo Detetive. Roubamos as passagens, hohoho!... Enfim, eles tentaram me ameaçar, etc. etc., e é claro que eu discuti e fiquei pensando aqui comigo: Haha, agora só falta eles botarem veneno na minha bebida... Mas daí eu pensei, tipo, Ah, peraí é claro que eles não são tão podres assim. Então eu vi a Mortícia fazendo isso, tipo a 2 centímetros de mim... E aí, hello? Eu fiquei meio pê da vida... tipo, fingi que ia beber e então tchá, espirrei o lance na cara deles. Daí eu tipo Haha, que comédia, mas eles ficaram doidinhos e começaram a se empurrar pra pegar a bolsa deles... daí os dois, tipo, Eca, tem nojeira no meu rosto! E eu disse: Vê se cresce, cara! Aí eu peguei a bolsa deles e sentei em cima. Hmmm. Não foi uma boa ideia.
— O veneno estava em forma concentrada — lan falou. — Na quantidade que Natalie tinha usado, podia ter nos mutilado, talvez nos deixado cegos.
Amy se afastou dele com repulsa, quase esmagando Dan na janela do carro.
— E vocês iam deixar a Nellie beber essa coisa? — ela disse.
— Nós só queríamos deixá-la incapacitada por um tempo — falou lan. — Só uma gota. Mas Natalie deixou o frasco escorregar durante uma turbulência. Antes que tivéssemos tempo de alertar sua babá de piercing no nariz, ela nos encharcou. Ainda bem que ela deixou que pegássemos o antídoto na bolsa.
— Que gentileza — afirmou Amy.
— Em troca, eu convenci os dois a me darem toda a grana que tinham na carteira — explicou Nellie.
— Isso foi suborno — Natalie resmungou.
Nellie virou o volante bruscamente para a direita, e Dan achou que ia carregar uma marca impressa de Amy para o resto da vida. De canto do olho, ele viu a mão de Amy roçar sem querer na de lan. Ela deu um gritinho e recolheu a mão rapidinho.
— Prrr! — fez Saladin, arqueando as costas e cuspindo em Ian.
— Ahn, enfim — lan se afastou do gato. — O motivo para ainda estarmos aqui é que gostaríamos de propor uma aliança temporária. Como explicamos para sua au pair suína, temos uma coisa de que vocês precisam.
— Tipo, duas passagens de avião? Tarde demais. E a gente ia preferir fazer aliança com um balde de lodo do que com um Kabra... se é que dá pra distinguir as duas coisas. — respondeu Dan.
— Está bem — replicou lan. — Vamos usar nosso artefato e encontrar a pista sozinhos...
Alistair virou-se na direção de lan.
— Artefato?
— Que alívio, enfim uma mente aberta — disse lan com um sorriso maroto. — Como o senhor Oh bem sabe, os Lucian vêm colecionando as pistas há muitos anos. Os Ekat também. E presumivelmente também os... Ei, qual é mesmo clã de vocês, Daniel?
— O clã Cahill — retrucou Dan, que odiava o fato de ele e Amy serem os únicos que não sabiam a que clã pertenciam. — E você tá pirando se acha que vamos colaborar com vocês.
— Dan, eles salvaram nossa vida — lembrou Amy.
— E também tentaram matar a gente! No desabamento em Salzburg, nos canais de Veneza...
— Pois é... Viram só como as coisas mudam! — observou Natalie, esfuziante.
— Nosso... item pertenceu a um guerreiro japonês. Vai ser importantíssimo para encontrar a próxima pista. Mas, puxa, nem eu nem a Natalie entendemos japonês. E é aí que você entra, senhor Oh. — Ele se debruçou sobre o banco da frente. — Você nos dá o que sabe. Nós lhe damos o que temos. Vamos trabalhar juntos.
— É só pra essa pista — Natalie logo acrescentou. — Depois disso, dispensamos vocês. Temos uma reputação a zelar.
— Pare aqui — Alistair pediu a Nellie.
Irrrrrrc! Cantando pneu, o Porsche parou em um canto afastado.
— Como vou saber se podemos confiar em vocês? — perguntou Alistair.
— N-nós já sabemos que não p-p-podemos — disse Amy.
lan sorriu e enfiou a mão no bolso, de onde tirou um saquinho de veludo estampado com o brasão dos Kabra. Ele o enfiou sobre a mão esquerda de Amy.
— Isto é para você, Amy Cahill. Agora, como vamos saber que podemos confiar em vocês?

***


Uma moeda.
Uma reles moeda de ouro com um símbolo – era com aquilo que os Kabra estavam comprando a confiança deles. Alistair leu os escritos em japonês no verso, segundo os quais talvez a moeda tivesse pertencido a Hideyoshi. Talvez. Dan achou aquilo o fim da picada. Colaborar com os Kabra era como dar um beijo na própria irmã. Tá, talvez não tão ruim assim.
— A moeda é muito bonita — sussurrou Amy, enquanto eles dobravam a esquina na direção do beco onde Dan tinha largado os objetos. Logo à frente deles, o tio Alistair relatava a lan e a Natalie o que tinha acontecido no metrô.
— Parece uma ficha de fliperama! — resmungou Dan.
— O tio Alistair não acha isso — murmurou Amy. — E ele é numismata.
— Ele fica pelado em público? — Dan perguntou.
— Numismata é uma pessoa que coleciona moedas! Além disso, estou sentindo que lan está falando a verdade.
— Isso é porque ele encostou na sua mão e te enfeitiçou.
— Xiu! — fez Amy, quando lan olhou de relance na direção deles.
O céu de fim de tarde parecia ter sido pintado com um vago tom arroxeado quando eles chegaram ao beco em frente à estação de metrô. O paletó de seda ainda estava no canto, como uma velha bolsa que alguém tivesse jogado fora. Apesar da penumbra, Dan conseguiu ler no rosto de Amy aquele olhar que ele conhecia.
Foi mal te envergonhar na frente do seu namorado, ele pensou.
Alistair se ajoelhou e pegou o recipiente em formato de cubo.
— Vamos depressa — ele disse.
Com um suspiro relutante, Dan tentou tirar a tampa enferrujada do cilindro. Ao seu lado, Alistair jogou o cubo para longe, com nojo.
— Aqui só tem lagartixas.
Quando ele estendeu a mão para pegar outro objeto, um carro preto e comprido parou do lado oposto da rua. Um homem de uniforme saiu do banco do motorista e contornou o veículo para abrir a porta do passageiro.
Dan se escondeu na sombra para observar. Um homem asiático, magro feito um cabo de vassoura e muito velho, saiu do carro. Seus cabelos brancos prateados caíam por cima dos ombros, e ele vestia um elegante terno escuro com um lenço de seda no bolso. Seguindo pela calçada a pé, ele pegou o celular enquanto se ajoelhava junto à entrada do metrô e espiava lá dentro.
Dan cutucou Amy no ombro.
Ele ouviu o tio Alistair soltar uma exclamação abafada e murmurar alguma coisa em voz muito baixa, algo que soava como bye-bye.
— Bye-bye? — disse Dan, e Alistair de repente o puxou mais para dentro da sombra.
O senhor idoso voltou para dentro do carro, que logo sumiu de vista.
— Quem era ele? — perguntou Dan. — O rei da Yakuza?
— Nós... — A voz de Alistair parecia estar presa na garganta. — Temos que sair daqui depressa. Abram todos os recipientes. Agora.
Com um grunhido, Dan finalmente conseguiu arrancar a tampa do cilindro, soltando um rio de parafusos, pinos, porcas e rebites.
— Fascinante... — lan derramou para fora algumas ferramentas da caixa retangular na qual estava mexendo. — Adoro martelos.
Alistair soltou um suspiro frustrado.
— Essa câmara que nós achamos talvez tenha sido um depósito de equipamento do metrô que eles lacraram durante a construção, muitos anos atrás, e depois esqueceram.
— Mas que operário do metrô deixa haikais misteriosos por aí? — perguntou Amy, enquanto tentava abrir a tampa do tubo triangular.
— Talvez sejam versos de uma música — disse Dan com um sorriso cansado. — Deve ser o trilho sonoro do metrô.
— Olha só! — Amy avançou até a luz do poste, enquanto tirava de um tubo um pergaminho comprido.
Os outros se amontoaram à sua volta, e Dan apontou a lanterna para o texto que havia no centro do velho documento. Estava escrito numa caligrafia escura, elegante, cercado por uma paisagem desbotada, parecendo inacabada, com uma formação rochosa e uns morros.
Alistair começou a traduzir:
— “No lugar da conquista final, entre os três chifres jaz a riqueza do povo. E pela união dos elementos é concedida a entrada, revelando o mais elevado.”
— Claro como wasabi — comentou Dan.
— Essas letras bem abaixo — disse Amy. — Elas parecem... letras normais.
Dan então iluminou um grupo de letras toscas, escritas com traços grossos, na parte de baixo do pergaminho:


— Toota? Será que é uma transcrição fonética da palavra francesa toute? — especulou Ian.
— Com certeza, lan — respondeu Dan. — Francês, num pergaminho japonês.
— “Conquista final”... — murmurou Alistair. — É isso! Essa é a chave. Eu sei onde está a pista!
— Onde? — Amy e Dan perguntaram ao mesmo tempo.
Um sorriso surgiu no rosto de Alistair, pela primeira vez naquele dia.
— No lugar onde Hideyoshi armou sua campanha final e sofreu sua derrota mais humilhante!
— Ah, sim — disse lan, incerto. — É claro. E esse lugar seria...?
— Vamos para casa — anunciou Alistair com os olhos brilhantes. — Vamos para a Coreia.

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